Monday, December 8th, 2008...8:01 am
O erro de Descartes
Para pensar bem e tomar decisões corretas é preciso manter a cabeça fria e afastar todos os sentimentos e emoções certo? Nada mais sábio do aqueles velhos conselhos como “mantenha a cabeça fria na hora de tomar essa decisão importante“, ou “não deixe que paixões interfiram no bom juízo“, correto? Errado.
No (ótimo) livro O erro de Descartes, do português Antônio Damásio, ele mostra que a ausência de emoção e sentimentos, na verdade, destrói a racionalidade ao invés de melhorar o processo de decisão.

Leia
Logo nos primeiros capítulos ele fala sobre um dos casos mais famosos da neurociência: Phineas Gage. Phineas Gage foi um australiano que viveu em meados do século XIX. Segundo relatos da época, ele era um homem muito gentil que trabalhava na construção de ferrovias. Após um acidente em 1848, envolvendo explosivos, uma barra de ferro atravessou sua cabeça. atingindo o cérebro (parte pré-frontal). Felizmente ele foi socorrido na hora e conseguiu sobreviver. Mas ele não só sobreviveu como não ficou com nenhuma sequela aparente (exceto por um olho que ele perdeu). Visão, fala e movimentos perfeitos. Entretanto, logo depois de recuperado, Phineas Gage teve seu comportamento completamente alterado: começou a usar palavrões, fazia comentários cruéis desnecessários, tratava mal as pessoas, e fazia péssimas decisões que não levavam em conta as consequências. Morreu pouco mais de 10 anos depois pobre e sozinho. Na época, um médico estudou o seu caso, e é graças a ele que temos todas essas informações.
O caso Phineas Gage é importante pois foi o primeiro caso que mostrou que emoção e comportamento estão sim associadas a uma parte específica do cérebro.

Reconstituição da passagem da barra de ferro no cérebro de Gage
No livro, Damásio ainda fala de um caso semelhante ao de Phineas Gage que ele teve a oportunidade de estudar, o caso de Elliot. Elliot sofreu um acidente semelhante ao de Phineas Gage, demonstrando os mesmos sintomas. Damásio aproveitou a chance para estuda-lo. Fez diversos testes de QI, além de outros tipos de testes de inteligência. Surpreendentemente, Elliot se saia muito bem, às vezes melhor do que a média da população, provando que era dono de um intelecto saudável.
Ao longo da convivência com Elliot, Damásio se deu conta que Elliot contava sobre a tragédia da sua vida de forma impassível. Com o passar do tempo, notou que Elliot quase nunca se zangava, nem se incomodava com as milhares de perguntas repetitivas de Damásio. Num outro teste, foi colocado estímulos visuais carregado em frente de Elliot como: pessoas se afogando, incêndios terríves e terremotos horríveos. Nisso, Elliot, impassivo, fez um comentário que abriu os olhos de Damásio: sinto que meus sentimentos mudaram após o acidente. Ou seja, Elliot se deu conta que coisas que antes lhe causavam emoções fortes, agora não lhe causavam nenhuma reação, nem positiva, nem negativa.
Imagine que sua comida favorita, a música que você mais gosta, seu filme predileto, nada disso te desperta mais nenhuma emoção. Você agora está para sempre destituido da possibilidade de curtir o que você gostava, e ao mesmo tempo, consciente de que aquilo outrora te divertia. Em suma, o estado de Elliot pode ser resumido como saber mas não sentir.

Capa da edição brasileira publicado pela Companhia das Letras
De fato, segundo Damásio, nenhuma emoção era muito intensa em Elliot, nem tristeza nem alegria. tanto o prazer como a dor pareciam ser de curta duração.
Essa falta de sentimentos leva o doente a não se importar muito com a sua decisão e portanto, fazer decisões ruins.
PS: O livro se chama o erro de Descartes porque Descartes acreditava que o corpo era separado da mente. A mente só precisava do corpo para poder funcionar, fora isso, não havia nenhuma conexão entre eles. Mas Damásio acredita justamente o contrário, que corpo e mente estão intimamente conectados: a mente comanda o corpo inteiro, mas são as sensações que o corpo manda para mente que induzem a mente funcionar daquela maneira, contrapondo o dualismo cartesiano no qual a alma (razão pura) é independente do corpo e das emoções.
Aqui outros comentários sobre o livro. E aqui um entrevista com o autor, que também é neurologista e professor, publicado na revista Superinteressante. Aqui uma matéria sobre o caso, da Super também. E por fim, a quem interessar possa, o crânio de Phineas Gage e a barra que atingiu sua cabeça (originais, não são cópias) estão expostos no Warren Medical Museum, na Escola de Medicina de Harvard.
E obrigado ao Rafael Kurama, que me emprestou o livro : D
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5 Comments
December 8th, 2008 at 12:54 pm
É possível a sobrevivência de blogs inteligentes? Tenho que crer que sim. Frente à enxurrada de blogs voltados para o entretenimento puro, termino achando que Descartes não pegou pesado na sua métafora mecanismo de relojoaria-cérebro, pois não vejo exemplos mais descartianos do que máquinas burras dedicadas ávida e exclusivamente à insustentável leveza do “for fun”.
Com isto, estou querendo dizer que uma psique puramente emocional, também cai no reducionismo da metáfora de Descartes. Bela resenha sobre o livro, tenho-o na minha biblioteca e tenho que lê-lo.
December 9th, 2008 at 2:34 am
Nunca tive dúvidas de que as coisas estavam ligadas… o perigo vai ser quando aprenderem a controlar essas mudanças de comportamento.
Sabe, experimentos militares para deixar soldados mais poderosos e menos emotivos, essas coisas de filme. Coisa que inclusive acho que já deve até existir, só não teve resultados expressivos e não veio a tona ainda.
December 9th, 2008 at 6:07 pm
Foi a melhor coisa que eu li pelos Blogs essa semana, Tks.
P.S: Eu sei q sou suspeito, mas a tua resenha do livro ficou tao bOA, que me despertou uma vontade d eler.
Uma dica… Procura sobre os “Numerati”,
Bjos
December 10th, 2008 at 8:26 am
E eu que achei que ninguém ia ler essa resenha imensa
January 29th, 2009 at 2:06 am
oi
olha gostei bastante de ler esse resumo. ta mt bem explicado e muito facil de entender. quem le esse resumo tem logo vontade de ir comprar o livro e ler, o que é mt bom pois os habitos de leitura tem desaparecido ultimamente.
Ps- ja no 11º ano não gostei muito de descartes…. mas enfim
o pprincipal problema é que vem cientistas malucos e as dizem so dizem asneiras
percebam: o corpo é quase perfeito e se reparámos só faz sentido se todas as partes funcionarem bem e ao mesmo tempo…. agora separações…
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