Tuesday, August 17th, 2010...9:23 pm

E se existisse um programa de bolsas Erasmus na América do Sul?

Enquanto estive na Índia fazendo um intercâmbio pela AIESEC, eu conheci muitos Europeus por lá. E uma coisa que de certo modo me surpreendeu foi o fato de que a maior parte deles sabia três línguas. Isto é, a língua materna deles, inglês e mais uma terceira língua, que variava muito. E não era falar um pouco, eles realmente eram fluentes nas três línguas. Perguntado, descobri que a maior parte aprendeu essa terceira língua através de intercâmbio pelo programa Erasmus.

O Erasmus funciona assim: um estudante de um país membro da União Européia pode fazer parte de sua graduação ou pós em outra universidade de outro país membro da União Européia. Tudo pago pela … União Européia. Em geral as bolsas são de graduação, de 6 meses a 1 ano, e a bolsa é bem pequena, mas permite o estudante a manter uma vida simples.

Parece um programa de bolsas como qualquer outro, mas conversando com um amigo polonês estudante de Relações Internacionais eu me dei conta de como ele é positivo, a tal ponto que alguns dizem que é o dinheiro mais bem investido pela União Européia.

Além do fato óbvio do programa estar fomentando a educação, ele é a melhor forma de criar um laço, uma verdadeira união na Europa. Por exemplo, o programa permite que um estudante da Alemanha, more 1 ano na Espanha. O que acontece com esse estudante ? Além do fato muito positivo de ele possivelmente aprender uma língua estrangeira, ele vai pela primeira vez se sentir estrangeiro. Óbvio que ele já deve ter visitado outros países como turista, mas certamente morar intensifica totalmente a experiência de se sentir estrangeiro: o alemão do exemplo, ao tentar aprender a língua (e ele vai precisar já que fará provas nessa outra língua), vai errar, vai falar com sotaque forte, vai se sentir perdido, e vai principalmente, se sentir minoria. E isso vai induzi-lo a ser solidário quando no seu país ele ver um estrangeiro, um imigrante, na mesma situação.

Fora isso, ele vai conhecer a cultura espanhola no caso, de maneira muito além dos esteriótipos, muito além do óbvio e do que se vê numa viagem de poucos dias. Esse mesmo alemão, vai provavelmente fazer amizade com outros espanhóis e também outros intercambistas do Erasmus de outras regiões da Europa, o que vai lhe dar a oportunidade de conversar e conhecer outras culturas de países de seu Continente. E assim, ele passa a ter um laço, uma união com os demais países do bloco europeu.

E ai me pergunto, porque isso não acontece no Mercosul ? Eu sei que o Mercosul está anos luz longe do que a União Européia é, mas como seria legal isso aqui, afinal, somos ignorantes sobre nosso próprio continente: Quantos bolivianos, chilenos ou uruguaios você conhece pessoalmente ? O que você sabe da cultura da Colômbia por exemplo ? Quantas vezes você viajou pelos países da América do Sul ? Diga algo que diferencie a cultura italiana da Francesa ? Você provavelmente sabe, agora diga o mesmo sobre a cultura peruana e chilena ? Você se sente Sul Americano ?

Parece que as universidades brasileiras se empenham mais em fazer acordos com universidades européias em nome do status que isso confere (afinal, ter acordo com França é muito mais status do que com Chile, não?) em detrimento de universidades de nosso continente, sendo que o custo de vida em qualquer país Sul americano é muitíssimo inferior, permitindo talvez que com o dinheiro gasto com um aluno mandado pra Áustria ou Holanda se mande 5 pra Argentina.

Eu não sei nada de relações internacionais, mas é curioso que um continente que fala VÁRIAS línguas diferentes, onde cada país tinha uma moeda distinta, conseguiu chegar num nível de união muito maior que num continente no qual basicamente se fala só Espanhol e Português. Será que o Erasmus não é uma das respostas a essa pergunta ?





2 Comments

  • O negócio é que lá é uma união, e aqui, um mercado.

  • A sugestão é boa, mas a comparação é um pouco injusta. Sim, na União Européia existem muitas línguas, existe muita diversidade. Mas o processo de aproximação entre os países vem acontecendo há muito tempo (e não se dá sem distúrbios). Além disso, existe outra diferença importantíssima entre a América do Sul e a União Européia: GRANA.
    A UE tem dinheiro pra financiar esse tipo de programa. Na América do Sul, quem financiaria? E quem gerenciaria?
    Por fim, não acho condenável que as universidades brasileiras tenham acordo com universidades européias. Qual o problema de mandar alunos trabalharem em laboratórios de ponta, ou pesquisarem com professores de referência? Acho que isso só favorece a instituição e a carreira dos alunos, professores e pesquisadores.
    E nada impede que também tenham acordo com universidades sul-americanas.
    Não acho que os acordos sejam feitos sob o critério de “status”. Ao menos não em universidades sérias.

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